terça-feira, 17 de maio de 2011

Com amor, Charlotte - 1° Capítulo

Já passavam das três da manhã e Aluis enfrentava uma importuna insônia, ao seu lado o irmão, Bernado três anos mais novo dormia como um anjinho apesar de Aluis compará-lo com algo bem mais tentado do que isso quando ele estava acordado.
Nesse quesito a mãe dos meninos, Ângela, levava sorte por pelo menos um dos meninos ser calmo e estudioso enquanto o outro conseguia infernizá-la com as piores artes, as piores notas e mais passava seu tempo em casa do que na escola já que vivia de suspensão.
      Aluis então foi buscar seu décimo copo de água na cozinha, aproveitou para olhar a rua pela janela. A rua agora estava calma, nenhuma criança falando alto enquanto solta pipa, nenhuma vizinha fofocando, nenhum carro sofrendo para passar pelas horrorosas ruas sem asfalto, se bem que pouco se via carros por ali, já que o único que possuía um era o vizinho da frente que usufruía da pampa para carregar seus materiais de pedreiro.
O garoto se lembrava com clareza de todos os momentos que havia vivido nesta vila e como sempre fora difícil. Ângela fora expulsa de casa depois de ficar grávida pela primeira vez aos quinze anos, e passou a viver no antigo barraco que ficava no mesmo local onde hoje havia uma casinha um pouco melhor, depois do primeiro filho veio Aluis e Bernado, mas logo depois do nascimento de Bernado, o pai dos meninos e seu filho mais velho sofreram um terrível acidente na rodovia enquanto iam trabalhar. Desde então ela havia se acabado. A tristeza pela morte do marido e do filho lhe acarretaram rugas, a dificuldade de criar dois filhos sozinha ainda pioraram a situação. Era uma sorte que ela tivesse conseguido um serviço como faxineira no Colégio Dom Carlos onde seus dois filhos eram bolsistas.
Logo começou a ventar, o menino fechou a janela voltou ao seu quarto, como ainda estava sem sono pegou o livro ‘A Moreninha’ da biblioteca e, o livro caiu no chão e ele viu uma carta que havia caído de dentro do livro.
Ele pegou o envelope amarelado onde na parte da frente ficava o remetente e leu “Charllote Baltez,” no verso não havia endereço apenas o nome de “Conrado”. O menino colocou a carta na mesinha de cabeceira e começou a ler seu livro, mas a intrigante vontade de abrir a carta foi maior do que a vontade de ler aquele clássico. E acabou abrindo cuidadosamente o envelope como se isso o deixasse menos culposo de abrir uma carta que não era sua.

Nenhum comentário:

Postar um comentário